segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NOSSOS ALUNOS E O MODELO DE AULA. OBSERVAÇÕES A PARTIR DA PRÁTICA.


   

     Hoje, remexendo em antigos escritos meus, me deparei com este cujo título me despertou especial atenção. Lendo-o novamente, pude constatar que em dez anos (esta é a idade do texto), a situação pouco evoluiu e continuamos nos debatendo no mesmo lodaçal em que atolou a educação brasileira. Vamos ao texto...

                Dia desses, na hora do recreio, além do café, das tradicionais bolachinhas e do cansaço habitual, tivemos uma discussão sobre o uso de recursos diferenciados em sala de aula.  A discussão começou espontaneamente, talvez provocada pela presença de algumas transparência sobre a mesa, que haviam sido usadas por um dos colegas em sua aula anterior. Alguém comentou sobre todo o trabalho de preparar uma boa aula daquele tipo e que nem sempre era valorizada pelos alunos. A discussão seguiu acalorada, com opiniões de todos os tipos e, infelizmente, foi interrompida pelo término do intervalo sem que houvesse uma conclusão. Movido pelo interesse de não perder as idéias discutidas e, quem sabe prolongar o debate, resolvi colocar no papel minha visão acerca do assunto.
                Ao observar o comportamento e as opiniões dos alunos acerca da introdução de técnicas diferenciadas da aula tradicional nos deparamos com um paradoxo: nossos alunos não suportam mais o tipo de aula que é dada, no entanto não estão preparados para o uso de novos recursos didáticos em sala de aula. Não raro, quando se aplica uma técnica  diferente, como uma dinâmica de grupo ou uma aula com multimídia, os alunos nos acusam de “enrrolar aula” e não levam a sério um trabalho que foi cuidadosamente preparado visando uma aula de melhor qualidade. Isso muitas vezes desestimula os profissionais.
                Essa contradição é causa de muita angústia para os profissionais mais comprometidos com um trabalho consistente. De um lado a escola e a sociedade cobram a utilização da moderna tecnologia, o que é louvável mas, por outro lado, a própria sociedade -  e a escola consequentemente – exigem o cumprimento de um programa de adestramento que inviabiliza o trabalho de construção significativa do conhecimento.
Durante as décadas em que se deu o desenvolvimento da indústria nacional, houve a necessidade de mão de obra tecnicamente qualificada, extremamente especializada e pouco criativa para que se pudesse reproduzir a tecnologia importada dos países já industrializados, ao passo que hoje, com uma economia global e automatizada as atividades de pura repetição estão condenadas a desaparecer deixando espaço apenas para as atividades de criação, coisa que o computador não faz pois trabalha dentro de regras fixas, pre-determinadas e já pensadas por alguém. O computador não cria por que não pensa e não pensa por que não sonha, não sente e tem respostas sempre lógicas. Para criar é preciso sonhar e ser ilógico, fugir do convencional, ousar. O mundo agora quer que aprendamos a aprender, que sejamos criativos; mas a escola fecha o espaço da criatividade e da livre iniciativa de seus alunos e profissionais, para reproduzir um modelo padrão de homem enquadrado para ser explorado. Promete criar homens criativos e não exercita a criatividade. A criatividade é perigosa porquanto perverte a ordem vigente e faz com que os processos fujam ao controle.
               
                               “ Não creio que a excelência funcional do formigueiro seja uma utopia desejável. Não existe evidência alguma de que homens-formiga, notáveis por sua capacidade de produzir, sejam mais felizes. Parece que o objetivo de produzir cada vez mais, adequado aos interesses de crescimento econômico, não é suficiente para dar um sentido à vida humana. É significativo que o Japão seja hoje um dos países com a mais alta taxa de suicídios do mundo, inclusive o suicídio de crianças. A miséria das escolas se encontra precisamente ali onde elas são classificadas como excelentes. Não critico a máquina educacional por sua ineficiência. Critico a máquina educacional por aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação que ela produz aparece da forma mais acabada.”
                                                                                                                                    Rubem Alves


Pensando dessa forma parece ser a escola a maior vilã nessa estória, no entanto a escola já percebeu o anacronismo em que está mergulhada e se debate para sair, tenta se modernizar mas está presa à sua função tecnológica. Os próprios pais, educados na escola tecnicista, cobram uma educação semelhante para seus filhos e a escola, para sobreviver, deve ceder às exigências do mercado. A escola também é uma instituição angustiada.
Eu, enquanto professor, confesso a minha parcela de culpa nesse processo. Para sobreviver e ser considerado enquadrado e produtivo (portanto desejado como profissional) tenho me submetido ao sistema e com ele compactuado, tendo sido em muitas vezes seu defensor aguerrido. Talvez falte-me a ousadia do artista, que rompe preconceitos e cria uma estética nova, um novo fazer, um novo pensar. Também fui educado no sistema e dele faço parte. Absorvi os seus ensinamentos e adquiri a lealdade do soldado que dá a vida por um ideal do sistema que muitas vezes desconhece. Fui bem treinado.
                Muitos dos nossos alunos que chegam ao ensino médio também já mostram o resultado desse treinamento quando repudiam a inovação das aulas.  Poucos os que estão em condições de entender um trabalho que fuja da tradicional repetição de conceitos. Querem sempre uma receita pronta, acabada. Depois de anos de treinamento e repetição fica-lhes difícil pensar sem uma receita. Esse resultado fica evidente quando se propõe numa prova uma questão ligeiramente diferente da que foi resolvida em aula ou quando se obriga o aluno a produzir algo sozinho como uma pesquisa, um experimento em laboratório ou mesmo uma redação: é  um verdadeiro “Deus-nos-acuda”.  Chovem reclamações do tipo “isso não foi dado”.
                Para resolver o impasse, seria necessária uma mudança de atitude dos profissionais, das escolas e das universidades e pagar o preço da mudança. Não há mudança verdadeira sem crise. Temos que quebrar  esse ciclo e mudar o nosso fazer pedagógico.
                A mudança deve ser de métodos e não de meios. Toda a tecnologia do mundo continuará ineficaz se estiver a serviço do modelo de repetição e continuará gerando descontentamento, fracasso escolar e indisciplina. Devemos sim usar a tecnologia que dispomos, mas acompanhada de uma nova mentalidade, uma nova visão de educação e para a formação de indivíduos cônscios de seu papel nessa sociedade competitiva.                     

3 comentários:

  1. Infelizmente é verdade,mas as universidades,ao realizar vestibulares de conhecimentos muito técnicos,forçam as escolas a adotar esse modelo tradicionalista.O Enem seria a forma de romper essa linha,mas está bastante desacreditado devido aos seus escândalos.Mas seria excelente se houvesse uma renovação de conteúdo nesse sentido.

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  2. "Para criar é preciso sonhar e ser ilógico, fugir do convencional, ousar.". Lembrei-me de um "trocadilho" de Lacan em relação ao dogma cartesiano: "Existo onde não penso e penso onde não existo."
    É exatamente como o senhor descreveu.São anos e anos de um treinamento e uma rigidez metodológica que podam a criatividade dos nossos alunos.Acredito que com a crescente implantação das novas tecnologias essa situação tende a diminuir.

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