Hoje, remexendo em antigos escritos meus, me deparei com este cujo título me despertou especial atenção. Lendo-o novamente, pude constatar que em dez anos (esta é a idade do texto), a situação pouco evoluiu e continuamos nos debatendo no mesmo lodaçal em que atolou a educação brasileira. Vamos ao texto...
Dia
desses, na hora do recreio, além do café, das tradicionais bolachinhas e do
cansaço habitual, tivemos uma discussão sobre o uso de recursos diferenciados
em sala de aula. A discussão começou espontaneamente, talvez provocada pela
presença de algumas transparência sobre a mesa, que haviam sido usadas por um
dos colegas em sua aula anterior. Alguém comentou sobre todo o trabalho de
preparar uma boa aula daquele tipo e que nem sempre era valorizada pelos
alunos. A discussão seguiu acalorada, com opiniões de todos os tipos e,
infelizmente, foi interrompida pelo término do intervalo sem que houvesse uma
conclusão. Movido pelo interesse de não perder as idéias discutidas e, quem
sabe prolongar o debate, resolvi colocar no papel minha visão acerca do assunto.
Ao
observar o comportamento e as opiniões dos alunos acerca da introdução de
técnicas diferenciadas da aula tradicional nos deparamos com um paradoxo: nossos
alunos não suportam mais o tipo de aula que é dada, no entanto não estão
preparados para o uso de novos recursos didáticos em sala de aula. Não raro,
quando se aplica uma técnica diferente,
como uma dinâmica de grupo ou uma aula com multimídia, os alunos nos acusam de
“enrrolar aula” e não levam a sério um trabalho que foi cuidadosamente
preparado visando uma aula de melhor qualidade. Isso muitas vezes desestimula
os profissionais.
Essa
contradição é causa de muita angústia para os profissionais mais comprometidos
com um trabalho consistente. De um lado a escola e a sociedade cobram a
utilização da moderna tecnologia, o que é louvável mas, por outro lado, a
própria sociedade - e a escola
consequentemente – exigem o cumprimento de um programa de adestramento que
inviabiliza o trabalho de construção significativa do conhecimento.
Durante as décadas em que se
deu o desenvolvimento da indústria nacional, houve a necessidade de mão de obra
tecnicamente qualificada, extremamente especializada e pouco criativa para que
se pudesse reproduzir a tecnologia importada dos países já industrializados, ao
passo que hoje, com uma economia global e automatizada as atividades de pura
repetição estão condenadas a desaparecer deixando espaço apenas para as
atividades de criação, coisa que o computador não faz pois trabalha dentro de
regras fixas, pre-determinadas e já pensadas por alguém. O computador não cria
por que não pensa e não pensa por que não sonha, não sente e tem respostas
sempre lógicas. Para criar é preciso sonhar e ser ilógico, fugir do
convencional, ousar. O mundo agora quer que aprendamos a aprender, que sejamos
criativos; mas a escola fecha o espaço da criatividade e da livre iniciativa de
seus alunos e profissionais, para reproduzir um modelo padrão de homem
enquadrado para ser explorado. Promete criar homens criativos e não exercita a
criatividade. A criatividade é perigosa porquanto perverte a ordem vigente e
faz com que os processos fujam ao controle.
“ Não creio que a excelência funcional do formigueiro
seja uma utopia desejável. Não existe evidência alguma de que homens-formiga,
notáveis por sua capacidade de produzir, sejam mais felizes. Parece que o
objetivo de produzir cada vez mais, adequado aos interesses de crescimento
econômico, não é suficiente para dar um sentido à vida humana. É significativo
que o Japão seja hoje um dos países com a mais alta taxa de suicídios do mundo,
inclusive o suicídio de crianças. A miséria das escolas se encontra
precisamente ali onde elas são classificadas como excelentes. Não critico a
máquina educacional por sua ineficiência. Critico a máquina educacional por
aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar
nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação
que ela produz aparece da forma mais acabada.”
Rubem Alves
Pensando dessa forma parece ser
a escola a maior vilã nessa estória, no entanto a escola já percebeu o
anacronismo em que está mergulhada e se debate para sair, tenta se modernizar
mas está presa à sua função tecnológica. Os próprios pais, educados na escola
tecnicista, cobram uma educação semelhante para seus filhos e a escola, para
sobreviver, deve ceder às exigências do mercado. A escola também é uma
instituição angustiada.
Eu, enquanto professor,
confesso a minha parcela de culpa nesse processo. Para sobreviver e ser
considerado enquadrado e produtivo (portanto desejado como profissional) tenho
me submetido ao sistema e com ele compactuado, tendo sido em muitas vezes seu
defensor aguerrido. Talvez falte-me a ousadia do artista, que rompe
preconceitos e cria uma estética nova, um novo fazer, um novo pensar. Também
fui educado no sistema e dele faço parte. Absorvi os seus ensinamentos e
adquiri a lealdade do soldado que dá a vida por um ideal do sistema que muitas
vezes desconhece. Fui bem treinado.
Muitos
dos nossos alunos que chegam ao ensino médio também já mostram o resultado
desse treinamento quando repudiam a inovação das aulas. Poucos os que estão em condições de entender
um trabalho que fuja da tradicional repetição de conceitos. Querem sempre uma
receita pronta, acabada. Depois de anos de treinamento e repetição fica-lhes
difícil pensar sem uma receita. Esse resultado fica evidente quando se propõe
numa prova uma questão ligeiramente diferente da que foi resolvida em aula ou
quando se obriga o aluno a produzir algo sozinho como uma pesquisa, um experimento
em laboratório ou mesmo uma redação: é
um verdadeiro “Deus-nos-acuda”.
Chovem reclamações do tipo “isso
não foi dado”.
Para
resolver o impasse, seria necessária uma mudança de atitude dos profissionais,
das escolas e das universidades e pagar o preço da mudança. Não há mudança
verdadeira sem crise. Temos que quebrar
esse ciclo e mudar o nosso fazer pedagógico.
A
mudança deve ser de métodos e não de meios. Toda a tecnologia do mundo
continuará ineficaz se estiver a serviço do modelo de repetição e continuará
gerando descontentamento, fracasso escolar e indisciplina. Devemos sim usar a
tecnologia que dispomos, mas acompanhada de uma nova mentalidade, uma nova
visão de educação e para a formação de indivíduos cônscios de seu papel nessa
sociedade competitiva.
Infelizmente é verdade,mas as universidades,ao realizar vestibulares de conhecimentos muito técnicos,forçam as escolas a adotar esse modelo tradicionalista.O Enem seria a forma de romper essa linha,mas está bastante desacreditado devido aos seus escândalos.Mas seria excelente se houvesse uma renovação de conteúdo nesse sentido.
ResponderExcluirTambém é a minha esperança.
Excluir"Para criar é preciso sonhar e ser ilógico, fugir do convencional, ousar.". Lembrei-me de um "trocadilho" de Lacan em relação ao dogma cartesiano: "Existo onde não penso e penso onde não existo."
ResponderExcluirÉ exatamente como o senhor descreveu.São anos e anos de um treinamento e uma rigidez metodológica que podam a criatividade dos nossos alunos.Acredito que com a crescente implantação das novas tecnologias essa situação tende a diminuir.