domingo, 26 de agosto de 2012

O ANALFABETISMO FUNCIONAL E AS COTAS


                 Os índices de analfabetismo funcional entre os brasileiros são alarmantes. Tornam-se mais preocupantes quando se verifica que vários anos de escolarização não são capazes de tirar a maioria dos indivíduos desta lastimável condição. A tristeza aumenta quando se constata que a esmagadora maioria (99%) dos testados não se vê assim, isto é, se declaram plenamente alfabetizados. 
            Para um melhor entendimento dos números e questionamentos que virão a seguir, é bom esclarecer que o sujeito, para não ser considerado analfabeto funcional, deve ser capaz de localizar mais de um item de informação em textos mais longos, comparar informação contida em diferentes textos, estabelecer relações entre as informações (causa/efeito, regra geral/caso, opinião/fonte), ater-se à informação textual quando contrária ao senso comum. Do ponto de vista da alfabetização numérica, esta é considerada plena quando o sujeito é capaz de adotar e controlar uma estratégia na resolução de problemas que demandam a execução de uma série de operações básicas (soma, subtração, multiplicação e divisão), por exemplo, tarefas envolvendo cálculo proporcional, cálculo de percentual de desconto, capacidade de interpretar gráficos e mapas.
                Nos países desenvolvidos, espera-se que o sujeito tenha adquirido os níveis acima ao término do ensino fundamental (8 anos completos de escolarização), antes do quê ainda é considerado analfabeto funcional para efeito de estatísticas oficiais e políticas públicas. No Brasil, o critério oficial é de 4 anos!?  Isso mesmo! Oficialmente, o nosso governo considera que saiu do analfabetismo funcional o sujeito que completou 4 anos de escolarização. Que escola primorosa é a nossa! Que métodos! Conseguimos em quatro anos o que nos países desenvolvidos só se consegue com oito! Tenha a santa paciência! Ou o governo e seus técnicos não sabem nada de educação ou trata-se de um verdadeiro estelionato.
                A realidade é bem diversa e pior do que a percebida pelo povo. De acordo com pesquisa feita anualmente desde 2001, pelo Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, com margem de 2,2 pontos percentuais, dos  brasileiros com idades entre 15 e 64 anos apenas 25% atingem os níveis de letramento descritos acima. Isto é, da nossa massa em idade produtiva, 75% é de analfabetos funcionais. Não me admira que a produtividade do trabalhador brasileiro esteja entre as piores do mundo por hora trabalhada.
                Numa descrição um pouco mais detalhada da estatística acima, apenas 12% das pessoas com até 7 anos de estudo (fundamental incompleto) são plenamente alfabetizadas. Entre aquelas com 8 a 10 anos ( médio incompleto), apenas 25%  e, pasmem, entre as que têm 11 anos ou mais de estudo (médio completo, universitários, graduados...) apenas 56% podem ser consideradas plenamente capazes. O esperado é que 8 anos de escolarização deveriam garantir esse mínimo (ler, escrever e saber porcentagem) ao indivíduo.
                Num cenário como esse, onde aproximadamente metade dos egressos do ensino médio não estão plenamente alfabetizados, aumentar a margem de ingressantes por cotas nas universidades federais é a solução? A universidade vai dar a esses indivíduos o que lhes faltou em 11 anos de escolarização? Ou, para não aumentar o já imenso índice de retenção no primeiros anos do curso superior serão estabelecidas cotas para a aprovação nas disciplinas dentro dos cursos? Se já é perverso enganar estas pessoas dizendo que elas estão alfabetizadas (a pesquisa mostra que elas se veem assim) chega a ser crueldade facilitar-lhes o acesso ao ensino superior nessas condições.
                Os números oficiais certamente ficarão mais bonitos, mas a realidade no final destes cursos, bem mais feia.  É certo que nossa massa de desempregados ficará bem mais glamorosa: ao invés de desempregados só com o ensino médio, teremos desempregados diplomados! Lógico que o governo continuará pondo a culpa na crise mundial. Esse mesmo governo só não sabe explicar por que tem emprego sobrando de um lado e desempregados sobrando de outro. Só no mês que passou o Brasil emitiu 33.000 vistos de trabalho para estrangeiros. Por que será que temos que buscar trabalhadores fora se temos desempregados aqui?
                Mais uma vez, o governo lança mão de medidas populistas ao invés de atacar o verdadeiro problema. Na educação, o problema está na base. Dar oportunidades iguais ao pobre e ao rico não é considerar os primeiros menos capazes facilitando-lhes as coisas é, isto sim, dar-lhes as mesmas armas para lutar em condições de igualdade.  
     

    

 

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