Os índices de analfabetismo
funcional entre os brasileiros são alarmantes. Tornam-se mais preocupantes quando se verifica que vários anos de escolarização não são capazes de tirar a
maioria dos indivíduos desta lastimável condição. A tristeza aumenta quando se
constata que a esmagadora maioria (99%) dos testados não se vê assim, isto é,
se declaram plenamente alfabetizados.
Para
um melhor entendimento dos números e questionamentos que virão a seguir, é bom
esclarecer que o sujeito, para não ser considerado analfabeto funcional, deve
ser capaz de localizar mais de um item de informação em textos mais
longos, comparar informação contida em diferentes textos, estabelecer relações
entre as informações (causa/efeito, regra geral/caso, opinião/fonte), ater-se à informação textual quando contrária ao senso
comum. Do ponto de vista da alfabetização
numérica, esta é considerada plena quando o sujeito é capaz de adotar
e controlar uma estratégia na resolução de problemas que demandam a execução de
uma série de operações básicas (soma, subtração, multiplicação e divisão), por exemplo, tarefas envolvendo cálculo proporcional,
cálculo de percentual de desconto, capacidade
de interpretar gráficos e mapas.
Nos países desenvolvidos, espera-se que o sujeito
tenha adquirido os níveis acima ao término do ensino fundamental (8 anos
completos de escolarização), antes do quê ainda é considerado analfabeto
funcional para efeito de estatísticas oficiais e políticas públicas. No Brasil,
o critério oficial é de 4 anos!? Isso
mesmo! Oficialmente, o nosso governo considera que saiu do analfabetismo
funcional o sujeito que completou 4 anos de escolarização. Que escola primorosa
é a nossa! Que métodos! Conseguimos em quatro anos o que nos países
desenvolvidos só se consegue com oito! Tenha a santa paciência! Ou o governo e
seus técnicos não sabem nada de educação ou trata-se de um verdadeiro
estelionato.
A realidade é bem diversa e pior do que a percebida
pelo povo. De acordo com pesquisa feita anualmente desde 2001, pelo Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, com margem de 2,2 pontos percentuais, dos brasileiros com idades
entre 15 e 64 anos apenas 25% atingem os níveis de letramento descritos acima.
Isto é, da nossa massa em idade produtiva, 75% é de analfabetos funcionais. Não
me admira que a produtividade do trabalhador brasileiro esteja entre as piores
do mundo por hora trabalhada.
Numa descrição um pouco mais detalhada da estatística
acima, apenas 12% das pessoas com até 7 anos de estudo (fundamental incompleto)
são plenamente alfabetizadas. Entre aquelas com 8 a 10 anos ( médio
incompleto), apenas 25% e, pasmem, entre as que têm 11 anos ou mais de estudo (médio completo, universitários, graduados...) apenas 56% podem ser
consideradas plenamente capazes. O esperado é que 8 anos de escolarização
deveriam garantir esse mínimo (ler, escrever e saber porcentagem) ao indivíduo.
Num
cenário como esse, onde aproximadamente metade dos egressos do ensino médio não
estão plenamente alfabetizados, aumentar a margem de ingressantes por cotas nas
universidades federais é a solução? A universidade vai dar a esses indivíduos o
que lhes faltou em 11 anos de escolarização? Ou, para não aumentar o já imenso
índice de retenção no primeiros anos do curso superior serão estabelecidas
cotas para a aprovação nas disciplinas dentro dos cursos? Se já é perverso
enganar estas pessoas dizendo que elas estão alfabetizadas (a pesquisa mostra
que elas se veem assim) chega a ser crueldade facilitar-lhes o acesso ao ensino
superior nessas condições.
Os números oficiais certamente ficarão mais bonitos,
mas a realidade no final destes cursos, bem mais feia. É certo que nossa massa de desempregados
ficará bem mais glamorosa: ao invés de desempregados só com o ensino médio,
teremos desempregados diplomados! Lógico que o governo continuará pondo a culpa
na crise mundial. Esse mesmo governo só não sabe explicar por que tem emprego
sobrando de um lado e desempregados sobrando de outro. Só no mês que passou o
Brasil emitiu 33.000 vistos de trabalho para estrangeiros. Por que será que
temos que buscar trabalhadores fora se temos desempregados aqui?
Mais uma vez, o governo lança mão de medidas
populistas ao invés de atacar o verdadeiro problema. Na educação, o problema
está na base. Dar oportunidades iguais ao pobre e ao rico não é considerar os
primeiros menos capazes facilitando-lhes as coisas é, isto sim, dar-lhes as
mesmas armas para lutar em condições de igualdade.
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