Hoje vi a manchete:
"Danuza Leão lamenta que hoje qualquer brasileiro possa ir a Nova York ou Paris"
O texto foi ao qual a manchete se refere pode ser lido em http://folha.com/no1190959 e foi publicado em 25/11/2012.
A manchete não deixa de ser sensacionalista e evidencia o aspecto elitista e aristocrático (ambos no mau sentido) do texto mas, justiça seja feita, cumpre bem o papel de despertar a vontade de lê-lo. Fazendo-o mais de uma vez e tentando não ser influenciado pela manchete, constatei que o texto não é de todo infeliz.
Ao apontar para o acesso cada vez mais fácil aos bens de consumo e às viagens (ótimo), a autora constata uma dificuldade maior de impressionar as pessoas, uma espécie de fim da inocência, no que eu concordo. Também concordo com a afirmação de que as pessoas querem, em maior ou menor grau, se sentirem especiais e exclusivas e, com o acesso mais fácil das pessoas às coisas, TER coisas exclusivas está se tornando mais difícil e é exatamente nesse ponto que vejo começar a falha; as pessoas não devem buscar ser especiais pelo TER e sim pelo SER. Dinheiro é bom e ajuda muito, mas quando só serve para comprar coisas, impressiona muito menos do que quando serve para aprender ou realizar coisas.
Não sou rico, longe disso, mas já viajei um pouquinho, li um bocado e já vivi, fiz e aprendi muita coisa que pouca gente tem oportunidade e quando tem, desperdiça.
Não me causa inveja quem foi a Paris e não percorreu os 16km de galerias do Louvre que eu percorri, sozinho, num dia inteiro de contemplação silenciosa das obras que o gênio humano foi capaz de conceber. Ou ainda quem não sentou num típico café parisiense, num fim de tarde e simplesmente observou as pessoas, os costumes, os cheiros, os sabores.
Não me faz inveja que foi a Londres e não andou no seu sistema de metrô centenário e organizadíssimo, ou não visitou seus muitos museus, ou não assistiu a uma das muitas belíssimas montagens teatrais sempre em cartaz simultaneamente naquela velha capital, sobrevivente até aos bombardeios de Hitller. Quando visitei a Abadia de Westminster vi muita coisa bonita, muitos túmulos de reis e rainhas mas, professor que sou, fiquei estático quando, numa área de acesso menos óbvio, me deparei com um altar ladeado pelos túmulos de Isaac Newton e Charles Darwin. O meu sentimento deve ter sido semelhante ao do fiel muçulmano que se confronta pela primeira vez com a Caaba. Tenho certeza que muita gente endinheirada não tem a menor ideia do que estou falando.
Não é especial para mim, uma pessoa que vai a Roma e não se emociona ao andar no Fórum Romano, onde um dia foi o centro de uma grande civilização que nos deixou dentre outras coisas, as bases do Direito ocidental. Não pude deixar de pensar que naquele calçamento onde eu andava, outrora andavam os Césares, os gladiadores e pessoas comuns que ali viveram suas vidas e construíram os fundamentos da civilização ocidental. Não pude conter a emoção quando fiquei mais de quinze minutos embevecido com o teto da Capela Sistina, no Vaticano, imaginando como um sujeito de carne e osso, poderia conceber e executar algo tão magnífico e com os meios de sua época.
Mas também não estou livre dos meu erros. Quando estive em Florença, visitei Pisa para ver a torre torta e esqueci de visitar o cemitério dos combatentes brasileiros na segunda grande guerra que fica em Pistóia, exatamente no meio do caminho entre as duas cidades. Pretendo um dia reparar este erro e prestar minha continência aos nossos bravos que lá descansam depois de lutar pela liberdade.
O que me causa inveja? O que me impressiona?
Tudo aquilo que é preciso mais que dinheiro para aproveitar: subir o Everest (ou qualquer outro dos grandes picos da Terra), ganhar uma medalha olímpica honestamente, escrever um bom livro, passar 6 meses pesquisando numa estação polar, ir ao espaço tripulando uma nave (como passageiro, basta ter o dinheiro), terminar um doutorado, pilotar helicópteros, tornar-se General, ou seja, tudo aquilo que depois de feito nos torna seres diferentes não pelo que temos mas pelo que somos.