segunda-feira, 26 de novembro de 2012

SER ALÉM DO TER

Hoje vi a manchete: 

"Danuza Leão lamenta que hoje qualquer brasileiro possa ir a Nova York ou Paris" 

    O texto foi ao qual a manchete se refere pode ser lido em http://folha.com/no1190959 e foi publicado em 25/11/2012.

   A manchete não deixa de ser sensacionalista e evidencia o aspecto elitista  e aristocrático (ambos no mau sentido) do texto mas, justiça seja feita, cumpre bem o papel de despertar a vontade de lê-lo. Fazendo-o mais de uma vez e tentando não ser influenciado pela manchete, constatei que o texto não é de todo infeliz. 
   Ao apontar para o acesso cada vez mais fácil aos bens de consumo e às viagens (ótimo), a autora constata uma dificuldade maior de impressionar as pessoas, uma espécie de fim da inocência, no que eu concordo. Também concordo com a afirmação de que as pessoas querem, em maior ou menor grau, se sentirem especiais e exclusivas e, com o acesso mais fácil das pessoas às coisas, TER coisas exclusivas está se tornando mais difícil e é exatamente nesse ponto que vejo começar a falha; as pessoas não devem buscar ser especiais pelo TER e sim pelo SER. Dinheiro é bom e ajuda muito, mas quando só serve para comprar coisas, impressiona muito menos do que quando serve para aprender ou realizar coisas.
   Não sou rico, longe disso, mas já viajei um pouquinho, li um bocado e já vivi, fiz e aprendi muita coisa que pouca gente tem oportunidade e quando tem, desperdiça. 
   Não me causa inveja quem foi a Paris e não percorreu os 16km de galerias do Louvre que eu percorri, sozinho, num dia inteiro de contemplação silenciosa das obras que o gênio humano foi capaz de conceber. Ou ainda quem não sentou num  típico café parisiense, num fim de tarde e simplesmente observou as pessoas, os costumes, os cheiros, os sabores. 
   Não me faz inveja que foi a Londres e não andou no seu sistema de metrô centenário e organizadíssimo, ou não visitou seus muitos museus, ou não assistiu a uma das muitas belíssimas montagens teatrais sempre em cartaz simultaneamente naquela velha capital, sobrevivente até aos bombardeios de Hitller.  Quando visitei a Abadia de Westminster vi muita coisa bonita, muitos túmulos de reis e rainhas mas, professor que sou, fiquei estático quando, numa área de acesso menos óbvio, me deparei com um altar ladeado pelos túmulos de Isaac Newton e Charles Darwin. O meu sentimento deve ter sido semelhante ao do fiel muçulmano que se confronta pela primeira vez com a Caaba. Tenho certeza que muita gente endinheirada não tem a menor ideia do que estou falando.
   Não é especial para mim, uma pessoa que vai a Roma e não se emociona ao andar no Fórum Romano, onde um dia foi o centro de uma grande civilização que nos deixou dentre outras coisas, as bases do Direito ocidental. Não pude deixar de pensar que naquele calçamento onde eu andava, outrora andavam os Césares, os gladiadores e pessoas comuns que ali viveram suas vidas e construíram os fundamentos da civilização ocidental. Não pude conter a emoção quando fiquei mais de quinze minutos embevecido com o teto da Capela Sistina, no Vaticano, imaginando como um sujeito de carne e osso, poderia conceber e executar algo tão magnífico e com os meios de sua época.
   Mas também não estou livre dos meu erros. Quando estive em Florença, visitei Pisa para ver a torre torta e esqueci de visitar o cemitério dos combatentes brasileiros na segunda grande guerra que fica em Pistóia, exatamente no meio do caminho entre as duas cidades. Pretendo um dia reparar este erro e prestar minha continência aos nossos bravos que lá descansam depois de lutar pela liberdade. 
   O que me causa inveja? O que me impressiona? 
   Tudo aquilo que é preciso mais que dinheiro para aproveitar: subir o Everest (ou qualquer outro dos grandes picos da Terra), ganhar uma medalha olímpica honestamente, escrever um bom livro, passar 6 meses pesquisando numa estação polar, ir ao espaço tripulando uma nave (como passageiro, basta ter o dinheiro), terminar um doutorado, pilotar helicópteros, tornar-se General, ou seja, tudo aquilo que depois de feito nos torna seres diferentes não pelo que temos mas pelo que somos.
   

domingo, 26 de agosto de 2012

O ANALFABETISMO FUNCIONAL E AS COTAS


                 Os índices de analfabetismo funcional entre os brasileiros são alarmantes. Tornam-se mais preocupantes quando se verifica que vários anos de escolarização não são capazes de tirar a maioria dos indivíduos desta lastimável condição. A tristeza aumenta quando se constata que a esmagadora maioria (99%) dos testados não se vê assim, isto é, se declaram plenamente alfabetizados. 
            Para um melhor entendimento dos números e questionamentos que virão a seguir, é bom esclarecer que o sujeito, para não ser considerado analfabeto funcional, deve ser capaz de localizar mais de um item de informação em textos mais longos, comparar informação contida em diferentes textos, estabelecer relações entre as informações (causa/efeito, regra geral/caso, opinião/fonte), ater-se à informação textual quando contrária ao senso comum. Do ponto de vista da alfabetização numérica, esta é considerada plena quando o sujeito é capaz de adotar e controlar uma estratégia na resolução de problemas que demandam a execução de uma série de operações básicas (soma, subtração, multiplicação e divisão), por exemplo, tarefas envolvendo cálculo proporcional, cálculo de percentual de desconto, capacidade de interpretar gráficos e mapas.
                Nos países desenvolvidos, espera-se que o sujeito tenha adquirido os níveis acima ao término do ensino fundamental (8 anos completos de escolarização), antes do quê ainda é considerado analfabeto funcional para efeito de estatísticas oficiais e políticas públicas. No Brasil, o critério oficial é de 4 anos!?  Isso mesmo! Oficialmente, o nosso governo considera que saiu do analfabetismo funcional o sujeito que completou 4 anos de escolarização. Que escola primorosa é a nossa! Que métodos! Conseguimos em quatro anos o que nos países desenvolvidos só se consegue com oito! Tenha a santa paciência! Ou o governo e seus técnicos não sabem nada de educação ou trata-se de um verdadeiro estelionato.
                A realidade é bem diversa e pior do que a percebida pelo povo. De acordo com pesquisa feita anualmente desde 2001, pelo Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, com margem de 2,2 pontos percentuais, dos  brasileiros com idades entre 15 e 64 anos apenas 25% atingem os níveis de letramento descritos acima. Isto é, da nossa massa em idade produtiva, 75% é de analfabetos funcionais. Não me admira que a produtividade do trabalhador brasileiro esteja entre as piores do mundo por hora trabalhada.
                Numa descrição um pouco mais detalhada da estatística acima, apenas 12% das pessoas com até 7 anos de estudo (fundamental incompleto) são plenamente alfabetizadas. Entre aquelas com 8 a 10 anos ( médio incompleto), apenas 25%  e, pasmem, entre as que têm 11 anos ou mais de estudo (médio completo, universitários, graduados...) apenas 56% podem ser consideradas plenamente capazes. O esperado é que 8 anos de escolarização deveriam garantir esse mínimo (ler, escrever e saber porcentagem) ao indivíduo.
                Num cenário como esse, onde aproximadamente metade dos egressos do ensino médio não estão plenamente alfabetizados, aumentar a margem de ingressantes por cotas nas universidades federais é a solução? A universidade vai dar a esses indivíduos o que lhes faltou em 11 anos de escolarização? Ou, para não aumentar o já imenso índice de retenção no primeiros anos do curso superior serão estabelecidas cotas para a aprovação nas disciplinas dentro dos cursos? Se já é perverso enganar estas pessoas dizendo que elas estão alfabetizadas (a pesquisa mostra que elas se veem assim) chega a ser crueldade facilitar-lhes o acesso ao ensino superior nessas condições.
                Os números oficiais certamente ficarão mais bonitos, mas a realidade no final destes cursos, bem mais feia.  É certo que nossa massa de desempregados ficará bem mais glamorosa: ao invés de desempregados só com o ensino médio, teremos desempregados diplomados! Lógico que o governo continuará pondo a culpa na crise mundial. Esse mesmo governo só não sabe explicar por que tem emprego sobrando de um lado e desempregados sobrando de outro. Só no mês que passou o Brasil emitiu 33.000 vistos de trabalho para estrangeiros. Por que será que temos que buscar trabalhadores fora se temos desempregados aqui?
                Mais uma vez, o governo lança mão de medidas populistas ao invés de atacar o verdadeiro problema. Na educação, o problema está na base. Dar oportunidades iguais ao pobre e ao rico não é considerar os primeiros menos capazes facilitando-lhes as coisas é, isto sim, dar-lhes as mesmas armas para lutar em condições de igualdade.  
     

    

 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NOSSOS ALUNOS E O MODELO DE AULA. OBSERVAÇÕES A PARTIR DA PRÁTICA.


   

     Hoje, remexendo em antigos escritos meus, me deparei com este cujo título me despertou especial atenção. Lendo-o novamente, pude constatar que em dez anos (esta é a idade do texto), a situação pouco evoluiu e continuamos nos debatendo no mesmo lodaçal em que atolou a educação brasileira. Vamos ao texto...

                Dia desses, na hora do recreio, além do café, das tradicionais bolachinhas e do cansaço habitual, tivemos uma discussão sobre o uso de recursos diferenciados em sala de aula.  A discussão começou espontaneamente, talvez provocada pela presença de algumas transparência sobre a mesa, que haviam sido usadas por um dos colegas em sua aula anterior. Alguém comentou sobre todo o trabalho de preparar uma boa aula daquele tipo e que nem sempre era valorizada pelos alunos. A discussão seguiu acalorada, com opiniões de todos os tipos e, infelizmente, foi interrompida pelo término do intervalo sem que houvesse uma conclusão. Movido pelo interesse de não perder as idéias discutidas e, quem sabe prolongar o debate, resolvi colocar no papel minha visão acerca do assunto.
                Ao observar o comportamento e as opiniões dos alunos acerca da introdução de técnicas diferenciadas da aula tradicional nos deparamos com um paradoxo: nossos alunos não suportam mais o tipo de aula que é dada, no entanto não estão preparados para o uso de novos recursos didáticos em sala de aula. Não raro, quando se aplica uma técnica  diferente, como uma dinâmica de grupo ou uma aula com multimídia, os alunos nos acusam de “enrrolar aula” e não levam a sério um trabalho que foi cuidadosamente preparado visando uma aula de melhor qualidade. Isso muitas vezes desestimula os profissionais.
                Essa contradição é causa de muita angústia para os profissionais mais comprometidos com um trabalho consistente. De um lado a escola e a sociedade cobram a utilização da moderna tecnologia, o que é louvável mas, por outro lado, a própria sociedade -  e a escola consequentemente – exigem o cumprimento de um programa de adestramento que inviabiliza o trabalho de construção significativa do conhecimento.
Durante as décadas em que se deu o desenvolvimento da indústria nacional, houve a necessidade de mão de obra tecnicamente qualificada, extremamente especializada e pouco criativa para que se pudesse reproduzir a tecnologia importada dos países já industrializados, ao passo que hoje, com uma economia global e automatizada as atividades de pura repetição estão condenadas a desaparecer deixando espaço apenas para as atividades de criação, coisa que o computador não faz pois trabalha dentro de regras fixas, pre-determinadas e já pensadas por alguém. O computador não cria por que não pensa e não pensa por que não sonha, não sente e tem respostas sempre lógicas. Para criar é preciso sonhar e ser ilógico, fugir do convencional, ousar. O mundo agora quer que aprendamos a aprender, que sejamos criativos; mas a escola fecha o espaço da criatividade e da livre iniciativa de seus alunos e profissionais, para reproduzir um modelo padrão de homem enquadrado para ser explorado. Promete criar homens criativos e não exercita a criatividade. A criatividade é perigosa porquanto perverte a ordem vigente e faz com que os processos fujam ao controle.
               
                               “ Não creio que a excelência funcional do formigueiro seja uma utopia desejável. Não existe evidência alguma de que homens-formiga, notáveis por sua capacidade de produzir, sejam mais felizes. Parece que o objetivo de produzir cada vez mais, adequado aos interesses de crescimento econômico, não é suficiente para dar um sentido à vida humana. É significativo que o Japão seja hoje um dos países com a mais alta taxa de suicídios do mundo, inclusive o suicídio de crianças. A miséria das escolas se encontra precisamente ali onde elas são classificadas como excelentes. Não critico a máquina educacional por sua ineficiência. Critico a máquina educacional por aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação que ela produz aparece da forma mais acabada.”
                                                                                                                                    Rubem Alves


Pensando dessa forma parece ser a escola a maior vilã nessa estória, no entanto a escola já percebeu o anacronismo em que está mergulhada e se debate para sair, tenta se modernizar mas está presa à sua função tecnológica. Os próprios pais, educados na escola tecnicista, cobram uma educação semelhante para seus filhos e a escola, para sobreviver, deve ceder às exigências do mercado. A escola também é uma instituição angustiada.
Eu, enquanto professor, confesso a minha parcela de culpa nesse processo. Para sobreviver e ser considerado enquadrado e produtivo (portanto desejado como profissional) tenho me submetido ao sistema e com ele compactuado, tendo sido em muitas vezes seu defensor aguerrido. Talvez falte-me a ousadia do artista, que rompe preconceitos e cria uma estética nova, um novo fazer, um novo pensar. Também fui educado no sistema e dele faço parte. Absorvi os seus ensinamentos e adquiri a lealdade do soldado que dá a vida por um ideal do sistema que muitas vezes desconhece. Fui bem treinado.
                Muitos dos nossos alunos que chegam ao ensino médio também já mostram o resultado desse treinamento quando repudiam a inovação das aulas.  Poucos os que estão em condições de entender um trabalho que fuja da tradicional repetição de conceitos. Querem sempre uma receita pronta, acabada. Depois de anos de treinamento e repetição fica-lhes difícil pensar sem uma receita. Esse resultado fica evidente quando se propõe numa prova uma questão ligeiramente diferente da que foi resolvida em aula ou quando se obriga o aluno a produzir algo sozinho como uma pesquisa, um experimento em laboratório ou mesmo uma redação: é  um verdadeiro “Deus-nos-acuda”.  Chovem reclamações do tipo “isso não foi dado”.
                Para resolver o impasse, seria necessária uma mudança de atitude dos profissionais, das escolas e das universidades e pagar o preço da mudança. Não há mudança verdadeira sem crise. Temos que quebrar  esse ciclo e mudar o nosso fazer pedagógico.
                A mudança deve ser de métodos e não de meios. Toda a tecnologia do mundo continuará ineficaz se estiver a serviço do modelo de repetição e continuará gerando descontentamento, fracasso escolar e indisciplina. Devemos sim usar a tecnologia que dispomos, mas acompanhada de uma nova mentalidade, uma nova visão de educação e para a formação de indivíduos cônscios de seu papel nessa sociedade competitiva.                     

GENTE BURRA


   Outro dia me perguntaram o que eu mais odiava. Depois de alguns segundos de reflexão, disparei: gente burra! Antes que os politicamente corretos de plantão me acusem de falta de caridade, de intolerância ou coisa parecida, eu explico.
   Quando digo que odeio gente burra, não me refiro aos naturalmente limitados por motivos diversos mas que, reconhecendo suas limitações, se esforçam diariamente
 para se superarem; a estes considero inteligentes.      Refiro-me a uma categoria especial: os burros que se acham espertos!
   Odeio gente burra que toma a vaga que alguém que já está esperando no estacionamento do shopping, que não respeita fila, que compra um carro enorme (necessidade de autoafirmação?) e para o carro atravessado, ocupando duas vagas no estacionamento (deveria pagar dobrado). Odeio gente burra que estaciona trancando os outros.
   Odeio gente burra que não dá passagem a quem pede, mesmo com o sinal já fechado, como se esperar alguns metros à frente fosse encurtar o tempo de viagem. Odeio gente burra que joga lixo pela janela, que não recolhe a própria bandeja quando come no shopping, que não dá descarga ou que urina no chão (estes são tão burros que lhes falta a coordenação motora!). 
   Odeio gente burra que, no avião, levanta da cadeira ou liga o celular antes do avião parar, desobedecendo a todas as instruções simples e claras que são dadas. Gente burra que, estando sentada nas cadeiras da frente do avião, faz questão de entrar primeiro só para ficar atrapalhando o embarque de quem está sentado mais atrás.
   Odeio gente burra que destrói equipamentos públicos, estraga transportes coletivos, risca mesas, paredes ou portas de banheiro. Estes últimos não descobriram a internet ainda; são analfabetos digitais.
   São tantas coisas, que um livro talvez não bastasse para enumerar e você, que está me lendo agora, pode classificar algumas dessas atitudes como falta de educação, falta de honestidade ou mesmo preguiça. Por isso repito: burrice! O mal educado, o desonesto, o preguiçoso não percebe que piorando a vida dos outros acaba piorando a sua. Burrice! Se cada um agisse com um pouco mais de bom senso, com menos burrice, a vida de todos seria menos trabalhosa. Todos ganhariam mais, trabalhariam menos e adoeceriam menos.
   O que mais me desanima é que gente burra se reproduz e passa para a geração seguinte sua cultura de burrice. Já foram a um restaurante e viram crianças correndo insistentemente entre as mesas, incomodando a todos e correndo risco de provocar acidentes sem que os pais se incomodassem minimamente? Curiosamente são os mesmos que ao deixar os filhos na escola param em fila dupla (às vezes tripla) como se todos tivessem que sofrer por que ele resolveu ter filhos. Que culpa os outros tem dele ter resolvido reproduzir?! Vai punir toda a humanidade agora?
   Eu ensino constantemente à minha filha, pelo exemplo, a não ser burra. Ela pode ser o que quiser na vida, só não lhe dou o direito de ser burra. Entretanto, em alguns momentos, chego a duvidar se estou fazendo o certo. Talvez só sirva para que ela sinta a tristeza, ou às vezes a raiva, que sinto quando presencio ou sou vítima dessas burrices. Chego quase a acreditar que gentileza só gera gente folgada!